Domingo, 05 Setembro 2010
 
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França 2009 PDF Versão para impressão Enviar por E-mail
Escrito por Apcf   
Terça, 23 Junho 2009 10:52
AVENTURA APCF FRANCA II
Murphy's lake 2009



Sexta-feira, 5 de Junho 2009 – Antecipação, expectativa

Ao fim de quase um ano de preparativos, mudança de planos, desistências e contratempos logísticos (por exemplo: uma cana comprada de propósito para a viagem partida no primeiro dia de utilização no Ermal…), finalmente chegou o dia tão ansiado. Os momentos de expectativa inicial são irrepetíveis. O receio de esquecer alguma coisa em casa persegue-nos até ao último momento mas esquece-se sempre qualquer coisa, como veio a acontecer.
Depois de carregar o carro conduzi, mais cedo do que combinado (tanta era a vontade de seguir para França), em direcção a casa do Nigel para arrumar o material para três pessoas.

No início receámos que tanto material e isco (mesmo sem biwies e bedchairs) não caberiam no meu carro. Mas, com o recurso a barras no tejadilho que transportaram os sacos de canas, afinal tudo coube perfeitamente. Mas o melhor seria não pensar em travagens bruscas…
Fizemo-nos então à estrada com o desejo de que a longa e penosa viagem corresse bem. A primeira etapa seria curta. Passámos pela Barragem de Valdanta em direcção ao ponto de encontro, perto de Chaves, onde já estava outro indefectível e resistente destas viagens, o Pedro Ramos, que já nos esperava há mais de meia hora. Transferimos as canas e o Gary (e mais algumas cervejas claro) para a sua carrinha e já seria hora de jantar quando entrámos num restaurante nas imediações com as paredes recheadas de fotos de políticos, de todos os políticos, da direita à esquerda… A decoração de restaurantes há de sempre surpreender…
Após uma boa refeição metemo-nos enfim à estrada em direcção a um sonho há muito tempo alimentado. Já era noite cerrada quando passámos a fronteira. Entrávamos na etapa mais longa, a complicada travessia de Espanha. Só pensávamos em chegar a França, a terra prometida e sagrada dos carpistas europeus e em especial dos portugueses. A auto-estrada à nossa frente parecia infindável e monótona como a travessia de um deserto e a determinada altura o sono começou a travar uma batalha connosco. As nossas armas: rock, Red Bull e cafés nas paragens. E fugazmente iam passando nomes mais ou menos familiares de cidades presentes no nosso trajecto.
Íamos avançando pela noite dentro e sabíamos que estávamos cada vez mais perto de França. Já ao raiar do dia entrámos na terra prometida e nas suas auto-estradas. Aquela zona, já familiar, era uma longa e vasta planície, mais lisa que o Alentejo. No entanto, a virada para a terra do Mike nunca mais aparecia no horizonte e caía uma forte chuvada. A auto-estrada estava repleta de camiões, e muitas ultrapassagens tivemos que fazer, como veio a acontecer no regresso.
Até que virámos finalmente para a estrada secundária que nos iria conduzir a mais uma etapa da viagem, a casa do Mike. No caminho passámos pela entrada de um lago mítico, o lago de Rainbow. Infelizmente, não poderíamos visitá-lo como era (e sempre foi) o nosso desejo. A expectativa em conhecer de perto o outro lago (o Murphy’s lake), no entanto, era enorme. O cansaço também já se fazia sentir. Mas chegámos pontualmente à casa do Mike, que já nos esperava (7horas em Portugal, 8 horas em França).
Dir-se-ia que não tinha passado tanto tempo desde a última vez que o havíamos visto. As barreiras geográficas nunca fizeram esmorecer a amizade, estima e admiração que sentimos por este grande carpista europeu (um dos maiores certamente), o grande Mike Verloove. E estávamos de novo juntos a tomar um café como se não tivesse passado um ano, como se o Mike morasse mesmo aqui ao lado. Pescar com o Mike de novo! Parecia mentira mas era verdade! Nesta altura, o cansaço era enorme (pelo menos para mim) mas escutávamos avidamente as suas explicações sempre práticas e entusiásticas, acerca dos segredos do lago em que iríamos pescar durante os próximos dias. Entretanto, com um certo esforço, foi preciso arrumar ainda mais material e isco nos carros. E num instante estávamos a percorrer a última etapa da nossa viagem, etapa esta que pareceu interminável, talvez pelo cansaço e pela estreiteza das estradas, pelo facto de passarmos por muitas vilas e aldeias.

Sábado, 6 de Junho – Murphy’s lake: Recuperação e reconhecimento

Até que, já na Dordogne (a região onde se situava o lago), chegámos finalmente à povoação contígua (não sei quantas povoações similares foram confundidas com a verdadeira). Já devíamos estar muito perto… O GPS do Ramos conduzia-nos por uma estrada secundária e em mau estado (como muitas em Portugal) que se afastava da povoação e mergulhava na floresta… Por fim estávamos a atravessar o próprio muro da barragem do lago, que afinal era percorrido por uma estrada pública, aspecto que não me tinha agradado. No entanto, o lago parecia-me espectacular e com um tamanho adequado, as águas escuras e turvas, aspecto característico desta massa de água. Love at first sight (amor à primeira vista) pelo lago.
Percorrido o curto dique da barragem entrámos por um portão que estava aberto mas onde dizia “propriedade privada”. Já estávamos no cenário onde iríamos viver e pescar durante mais de uma semana…
No Murphy’s lake, já nos esperavam no Lodge principal com o alpendre e mesa de madeira, ponto de encontro e onde eram servidas as refeições, para quem as queria tomar ali. Tempo de conhecer os donos (Peter Murphy e Michelle), que se revelaram sempre muito simpáticos, e o Fred, colaborador e parceiro do Mike, que estava ali para nos ajudar a pescar no lago. Não conhecíamos o Fred, ele praticamente só falava francês, mas depressa ficámos todos à vontade porque somos carpistas entusiastas e as barreiras linguísticas são fáceis de atravessar. Entendemo-nos facilmente e falámos uma mistura de francês, inglês e português, além dos gestos claro. Também conhecemos Murph e Che, os dois cães dos proprietários, que também rapidamente se apegaram a nós e não nos pouparam a lambidelas, a saltos e brincadeiras (como quase todos os cães).

 

Depois de descarregar o material dos carros, para ser distribuído pelos pesqueiros (3 dos quais acessíveis mais facilmente através de barco), ainda estivemos bastante tempo a conversar acerca da pesca no lago e a observá-lo dali. Nesta altura, o cansaço e o sono quase me venciam mas era tempo de descarregar o material nos pesqueiros e começar a montar canas, espetos e alarmes; além da preparação do engodo (pellets, boilies desfeitos, stick mix e party blend). A etapa seguinte seria posicionar com o barco, meticulosamente, as montagens nos melhores locais em cada pesqueiro e colocar umas mãos-cheias de engodo. Com as canas, montagens/iscagens e engodagens já prontas e distribuídas, decidimos jantar no lodge antes de começar a pescar. O jantar era sempre servido por volta das 18h. Assim, eu, Mike, Fred e Ramos atravessámos de barco um braço do lago em direcção ao lodge onde já nos esperavam para a primeira refeição da semana.

O CENÁRIO


Vista do braço onde estão as duas casas de madeira, o ponto branco é precisamente a abertura do pesqueiro

Vista do mesmo braço, de outro ângulo: pesqueiro da casa nº1, já montado


Vista do outro sector, conhecido como "ponta", em frente ao dique, onde pescaram Mike, Páscoa e Ramos


Panorama observável da "ponta", ao canto direito, uma pequena baía cheia de obstáculos submersos e guarida para grandes peixes

Ainda na ponta: pequena baía, do lado esquerdo do dique, que se revelou uma excelente opção

Nunca entendi os preconceitos que existem, no mundo do carp fishing, em relação a lagos pequenos como este. O melhor que as pessoas têm a fazer é mesmo pescar algumas vezes neste tipo de pesqueiros para perceberem a dificuldade técnica e o encanto destes lugares. Claro que também se deve pescar em grandes lagos e isso também tem os seus encantos e dificuldades.
Este lago, de acordo com as indicações fornecidas no site, teria 9 acres (unidade de medida equivalente a um estádio de futebol). Era de facto um lago pequeno mas tinha muitas particularidades e, pelo menos, 4 braços e baías muito interessantes, além da zona mais larga, mesmo em frente ao dique: essa era a zona onde eu, o Ramos e Mike iríamos pescar; Nigel e Gary pescariam num dos principais e maiores braços, mesmo em frente ao lodge.
Segundo as informações patentes no site era um lago maduro, isto é com dois séculos de existência. A cor da água e a composição do seu fundo indiciavam precisamente isso. O lago era pouco profundo e rico em zonas de lodo mas possuía alguns sectores pescáveis, perto da margem, em barro e gravilha. Além disso era rico em lagostins que rapidamente se fizeram mostrar nas margens. Vegetação aquática praticamente não existia, tirando um pequeno banco de nenúfares mesmo em frente ao pesqueiro do Nigel.
De qualquer forma, todos sabíamos que o lago fervilhava de grandes carpas com mais de 20 kilos, resultado de povoamentos mais recentes feitos pelo proprietário. O fascínio de pescar num pequeno lago passa muito por isso, saber que um arranque pode nunca acontecer mas quando acontece é um recorde. Embora também tivéssemos consciência que a pesca destas carpas seria extremamente difícil pelo simples facto de já terem sido pescadas e picadas muitas vezes nos últimos tempos. Era, nesta altura em que iríamos pescar, um lago bastante pressionado e técnico. Com efeito, após a nossa chegada, um grupo de carpistas ingleses tinha acabado precisamente de abandonar o lago e tinha conseguido boas capturas. Era ponto assente que esses peixes já não se conseguiriam capturar na nossa semana. Talvez com uma excepção…
Para mim, o lago era suficiente grande para me perder nele. E num certo sentido acontece sempre isto. O tamanho não torna necessariamente a pesca mais fácil. A grade era uma possibilidade bem real e estava mentalizado para isso, como se verá no relato a seguir.



Domingo, 7 de Junho – Finalmente a pescar – Primeiras lições!

Com a sonolência e falta de energia acumulada após 12 horas de condução contínua e zero horas de sono, foi penoso (pelo menos para mim) montar as canas e preparar as montagens, iscagens e engodagens, mas fiz um esforço para aproveitar ao máximo o tempo de pesca. Enquanto esperasse pelos arranques decerto teria tempo para descansar, sabia que não estávamos numa run’s water (água de arranques). Ainda no sábado (dia 6) e após a refeição tomada no lodge (não se podia deixar as canas a pescar sem vigilância), as montagens foram posicionadas milimetricamente, sempre com o recurso a barco, em locais estratégicos situados em todos os pesqueiros. Obviamente, sem a ajuda dos conhecedores do local, tudo teria sido infinitamente mais difícil.
Assim, uma das muitas lições práticas aprendidas não constitui propriamente uma novidade mas deve ser sempre referida. Um dos factores essenciais neste tipo de pesca, não o único (já veremos outros), é a localização das montagens. Uma montagem perfeita e com o melhor isco caseiro do mundo colocada num local errado (uma zona de lodo denso, por exemplo) equivaleria, com grande probabilidade de certeza, a um alarme mudo como o túmulo de Camões. Aliás, com o recurso a lançamentos normais feitos da margem seria difícil acertar nos locais quentes ou hot spots, embora não impossível. Já houve um tempo em que neste lago era possível fazer capturas com lançamentos das margens. Em alguns casos, bastava um desvio de centímetros para inviabilizar o sucesso da pesca. Dava para constatar, através da observação a olho nu, que as carpas tinham rotas muito específicas e fora desses lugares seria quase impossível uma ferragem. Além disso, as zonas de lodo denso e malcheiroso eram dominantes em relação às zonas de leito “duro” (argila ou pedras/gravilha, ou uma mistura das duas), presentes sobretudo nas margens, muitas vezes a profundidades inferiores a um metro.
Um lago pequeno com particularidades como estas (features) é sempre suficientemente grande para errarmos a localização das montagens, às vezes por um centímetro. Pode parecer bizarro, mas, ao longo desta sessão, ninguém realizou um único lançamento com as canas. Embora quase todos os locais de pesca fossem facilmente acessíveis a qualquer lançador medíocre.
Mas é bom avançar com a narrativa. Peço desculpa por não conseguir economizar palavras, mas há realmente muito para contar, tanto em termos técnicos como humanos (camaradagem). E esta narrativa conta apenas uma pequena parte. Tenham paciência para seguir o relato. A pouco e pouco vou revelando os pormenores técnicos e estratégicos, mas nunca conseguirei revelar tudo.
Escusado será dizer que, com tanto cansaço acumulado, até eu consegui adormecer logo na primeira noite no lago, num dos biwies dos proprietários, que está permanentemente montado no pesqueiro (bedchair incluída), o que facilita imenso o transporte dos que vêm de longe para pescar ali, sobretudo ingleses, mas agora também portugueses.
Fiquei animado logo nas primeiras horas de pesca mas foi sol de pouca dura. Antes de adormecer, uma das minhas canas – a que estava colocada, em puro snag fishing (embraiagem totalmente fechada), debaixo de uma árvore morta, emitiu logo uns bips promissores, mas, infelizmente, não cheguei a tomar contacto com o peixe. A montagem foi de novo colocada no seu posto; uma vez mais, a central soltou de novo alguns bips, eu saltei da cama como um relâmpago e raspei um joelho, mas não deu em nada…
Adormeci então profundamente até ser acordado por ruídos na madrugada. Pareceu-me ouvir um assobio e depois ouvi rumores de passos e vozes, palavras entrecortadas que não entendi de imediato. Levantei-me estremunhado e fui averiguar o que se passava. Todos os ruídos convergiam para o pesqueiro do Ramos, uma estreita e pequena baía num dos cantos. Rapidamente percebi que este já tinha conseguido o seu primeiro peixe, não tendo recorrido a qualquer ajuda para o conduzir ao camaroeiro, o que é muito bom para começar. O peixe não era grande mas revelou-se extremamente bonito. Não diferia muito das espelhadas alongadas e quase lineares que encontramos aqui pelo norte. Pelo menos, a grade já tinha sido quebrada. Pesou apenas 16,4 libras mas já era um começo. Serviu para nos animar mas foi motivo para reflexão.


o primeiro peixe da sessão, uma espelhada de 16,4 libras (7kgs)


De registar que durante todo o primeiro dia e primeira noite a chuva não parou de cair, até com alguma intensidade. Aliás, foi uma constante em toda a sessão, o que até contribuiu – penso eu – para o seu sucesso. Quantas foram as actividades da APCF sem chuva? Fizemos a viagem com chuva, apanhámos chuva durante todos os dias e apanhámos também chuva e trovoada numa parte da viagem de regresso.
Já com o sol bem alto, na manhã do mesmo dia, renovámos iscos e engodagens e reposicionamos, em alguns casos, montagens.
Até que uma das minhas canas, posicionada num hot spot mesmo em frente ao dique, fez soar o ATTX. Corri de imediato para ela, excitado como é natural, tendo conseguido uma ferragem, para logo a seguir saltar desequilibrado para o barco, onde o capitão Mike já me chamava para iniciar a luta. Recolhi linha rapidamente enquanto o barco avançava para águas abertas, para evitar que o peixe se metesse em algum obstáculo no dique. A emoção era grande pois estava no decurso de uma luta com um peixe que podia ser o peixe da minha vida. Nem liguei ao facto de a tracção não me parecer muito forte. O Nigel disse-me depois que do seu posto, numa outra margem, deu para perceber que a cana nem chegou a dobrar…


O recorde para o peixe mais pequeno do lago calhou-me a mim, que felicidade!!


Como se vê, outra das particularidades deste tipo de pesca foi a obrigatoriedade quase absoluta de usar barco. Em muitos casos, praticámos snag fishing puro e duro, o que tornava quase obrigatório o uso de barco para extrair o peixe da zona perigosa. Na maior parte dos casos, porém, a segurança do peixe e o sucesso da captura estariam garantidos se fizéssemos a luta no barco. Tratando-se, em muitos casos, de carpas monstruosas de mais de vinte quilos, fazer a luta da margem, sendo possível e tendo sido feito até em alguns casos, implicava um risco muito mais elevado de perder o peixe, quer devido ao número de linhas presentes na água, quer devido à pouca profundidade das margens. É facil imaginar a reacção de um peixe com dois palmos ou mais de altura em profundidades inferiores…
Na fase terminal da minha primeira luta, já com o peixe dominado e a chegar à superfície, percebemos que se tratava de uma comum de pequenas dimensões o que esfriou um pouco o meu entusiasmo, como se vê no vídeo, na viagem de regresso para o pesqueiro.
Era nem mais nem menos do que o peixe mais pequeno do lago, a famosa Golden Sardine, que já tinha sido pescada por carpistas de todas as nacionalidades!
Contudo, não era razão para desanimar, estávamos apenas no começo. Foi, claro, um pretexto para muitas risadas e piadas. Isto é pesca, that’s fishing! Mesmo em lagos como estes existem por vezes peixes pequenos que são os primeiros a ser enganados. Mas já era o segundo. Onde se tinham metido os pais e os avós?

APRESENTAÇÃO: CONSEGUIR A MÁXIMA DISCRIÇÃO


Nesta altura (ou até desde o início, já não me lembro), o Mike chamou-nos a atenção para outro pormenor importante, além da localização: a apresentação das montagens na água. Esta tinha de ser o mais discreta possível, em termos de camuflagem e não só, uma vez que os peixes já tinham aprendido, com o tempo e com os traumas das capturas, a evitar as montagens e a perceber o perigo de uma iscada ligada a leadcores, chumbadas, linhas, etc. Trata-se do síndrome dos “peixes educados”, conceito discutido e discutível, por diversas razões.
Foi mais ou menos nesta altura que começámos a tentar aperfeiçoar ao máximo as montagens, mas isto não chegava, verão depois porquê. É que a apresentação envolve duas componentes: a) a perfeição e discrição da própria montagem; b) a forma como a montagem é colocada no fundo, em muitos casos manualmente (uma técnica é enterrar o chumbo e o leadcore...).
Com o Mike estamos sempre a aprender truques e técnicas novas para vencer os obstáculos/dificuldades patentes em cada água. Uma vez mais, tal como em Hostens (Lamothe) conhecemos e aplicámos a técnica do balde/natação, isto não aparecia em nenhum artigo ou livro de Carp Fishing que tivesse lido e eu já li uma boa quantidade deles. Um grande pescador tem sempre o engenho e a criatividade para inventar novos truques e astúcias para vencer as dificuldades, não se limitando a aplicar fórmulas/montagens já feitas ou patentes nos manuais. O Mike é certamente um destes pescadores criativos. Não tenho a mínima dúvida. O grande sucesso obtido na pesca de grandes exemplares e o espectacular palmarés já obtido não se devem ao acaso e à sorte, ao simples facto de ter a possibilidade de pescar em locais com grandes espécimens.
No início, fui um pouco preguiçoso e limitei-me a usar uma montagem in line convencional com leadcore e chumbada camuflada Korda e Atomic e pouco mais… Uma montagem impecável para as nossas águas, mas para aqui não era suficientemente discreta. Talvez se devesse ao facto de o leadcore ser demasiado escuro para a cor clara do barro (hot spots)… De qualquer forma, a montagem in line foi a mais usada neste lago, talvez porque proporciona uma maior capacidade de ferragem e uma apresentação mais discreta do que uma montagem em derivação.
Acontece que o Pedro Ramos, que veio munido com uma fabulosa Rig Station da Nash recheada de caixas e caixinhas de acessórios de todas as cores e feitios aptos para enfrentar qualquer situação – e fez ele muito bem! – começou desde cedo a aperfeiçoar as suas montagens. E aliás tinha tudo o que era preciso para isso, quando digo tudo é mesmo tudo, até chegou a auxiliar todos os outros com apetrechos muito úteis mas que ninguém tinha. Desde cedo invejei, como um puto inveja um brinquedo de outro, a sua caixa que permitia uma arrumação perfeita de tudo e mais alguma coisa e além disso tinha pés, substituindo as mesinhas de biwie.


Pode parecer Tarty mas ajuda imenso a manter ordem nos acessórios substituíndo as mesas de biwie


A conclusão a extrair é que em águas difíceis como esta isso pode mesmo fazer a diferença. Por vezes pensamos que compramos coisas a mais e que há certas coisas que nunca chegamos a usar, sobretudo nas barragens fáceis de Portugal, mas aqui tudo muda de figura.
Nesta medida, os já conhecidos e resistentes Leaders afundantes Safe Zone da Korda, construídos num material sintético e translúcido parecido com o nylon, mas com cores discretas próximas dos leitos revelaram-se um trunfo neste lago. No entanto, usaram-se sempre em combinação com um troço de leadcore, sugestão do Mike que NUNCA vi em nenhuma revista. O Mike pensa que um leader deste tipo, demasiado curto aliás, não tem o mesmo poder de colagem ao fundo do que se for seguido de leadcore, o qual facilita a colagem ao fundo. Claro que é uma montagem extremamente dispendiosa (nem quero calcular o preço total de cada montagem), mas num local como este, em que podem surgir carpas a rondar os 30 kilos e o investimento é grande só para vir pescar, penso que compensa inteiramente.
Pode não haver nenhuma relação de causalidade directa entre o uso de um leader Safe Zone atado a um troço de leadcore normal, além dos backleads (flyingbacklead e captive back lead), até porque há outros factores a intervir, como a localização/ qualidade do isco, etc Mas o que é certo é que o perfeccionismo do Ramos começou desde cedo a render os seus frutos, até na forma como cortava e apresentava os iscos. Ou então seria o factor pesqueiro. Isto não é uma ciência exacta…



Montagem mais usada; usou-se putty de tungsténio para cobrir a junta entre o leadcore e o Leader Korda; o estralho usado foi normalíssimo (Coretex da Fox na cor mais aproximada do fundo, uns optaram por sandy, e shrink tube, na figura ainda não encolhido)


Seja como for, às 14h15m (hora portuguesa) o Ramos foi brindado com um novo arranque. Tratava-se de uma cana colocada relativamente longe, numa baía circundada por árvores, do lado do seu pesqueiro e ao lado de uma das extremidades do dique. Ele chegou a travar contacto (violentíssimo, parece) com o peixe mas, infelizmente, acabou por perdê-lo em circunstâncias dramáticas. Está tudo registado no vídeo. O barco estava longe daquele ponto e demorou-se algum tempo a conduzi-lo, pela margem, até lá. Por outro lado, o Ramos mostrou algum receio em entrar no barco o que atrasou ainda mais os procedimentos a fazer naquelas circunstâncias: quando mais cedo se entra no barco e se arrancar o peixe das zonas perigosas mais probabilidades se tem de concluir a luta com sucesso. Neste caso, quando finalmente entrou no barco já o peixe se teria enredado, e de que maneira, nos obstáculos presentes na margem. De qualquer forma, deve-se sempre seguir com o barco para o local onde está preso o peixe/montagem a fim de tentar desembaraçá-lo manualmente e depois prosseguir a luta em águas abertas ou mesmo sacá-lo directamente para a rede. Assim tentou proceder o Mike. Foi tudo muito rápido. Logo percebemos que o Mike apenas levantou a montagem da água. No regresso contou-nos que teve nas suas mãos uma das carpas mais bonitas e pesadas do lago, a famosa Três Escalas. Verificou-se depois que o Hayabusa nº 6 dobrou completamente o que terá provocado a desferragem… Foi uma grande desilusão para todos como seria de esperar… A partir daí começámos a mudar os anzóis para o nº4, menos discreto mas mais seguro na luta.



Estado em que ficou o anzol (Hayabusa nº 6) após a luta com uma carpa de mais de 25 kilos


Felizmente, a desilusão durou pouco. Às 15h45 (hora portuguesa), a central do Ramos soou de novo e este correu para o seu pesqueiro. Desta feita, tinha sido uma das canas colocadas a pouca profundidade e a poucos metros do seu Biwie, dentro da baía do canto. A luta, espectacular, foi travada de cima do pontão do pesqueiro num espaço muito curto. Uma esplêndida comum de 47 libras (22 kgs) foi, enfim, conduzida em segurança ao camaroeiro. Tinha chegado o recorde tão esperado do Ramos e o primeiro peixe decente da sessão.
Curiosamente, à altura, estavam presentes várias pessoas em amena cavaqueira na nossa zona do pesqueiro (a mais social), incluindo o dono do lago, os seus cães, um carpista francês (O Stéphane) e até o Nigel, que nos tinha vindo visitar (o seu pesqueiro estava inactivo). Foram momentos de grande animação e excitação para todos, como se deve calcular. As máquinas dispararam de novo e o peixe foi devolvido ao seu elemento com grande alegria, festa e brindes.


A primeira conquista da sessão: uma espectacular comum de 22kg trabalhada da margem


O pesqueiro do Ramos estava a revelar-se um grande sucesso. Ele levantou a hipótese de se dever ao facto de ser mais sossegado. De facto, a zona onde nos sentávamos, do lado direito, a conversar e a fazer montagens era relativamente afastada do seu pesqueiro.

 

Segunda, 8 de Junho – As lições continuam

Nada mais tendo acontecido durante a noite, durante o dia reposicionámos algumas montagens (à excepção das do Ramos) e, além de comer, conversar e gracejar, dedicámos o tempo a mudar/aperfeiçoar montagens e a fazer estralhos de reserva. Eu só registei alguns bips numa das canas, por sinal, a cana da árvore morta. Esta cana devia permanecer na água pelo menos dois dias antes de ser mudada e foi assim mesmo que fiz. Chegou mesmo a ficar três dias seguidos na água. Geralmente, só mudávamos as canas uma vez por dia (caso não houvesse arranques). Os lagostins, neste sector, não se revelaram um problema, mesmo tendo em conta que usávamos boilies de peixe, o que já não sucedia no sector do Nigel e Gary.

Cana colocada debaixo da árvore morta que chegou a estar três dias seguidos na água, o procedimento normal.


Entretanto, o pesqueiro do Ramos voltou a animar o dia. Às 18 horas ele consegue mesmo levar às redes uma pequena comum wildie de 19,5 libras (aprox. 9 kilos) na baía mais longínqua. O mais curioso neste arranque foi que, pouco antes de ouvirmos o alarme, ouvimos o salto do peixe na água ao sentir-se picado, pois tratava-se de uma zona pouca profunda. Assim ficámos a saber que há um pequeno hiato entre o momento do sinal sonoro e a ferragem do peixe. O som do alarme já chega com algum atraso relativamente ao momento em que o peixe se ferra. Neste caso, o Ramos agiu com rapidez e conseguiu arrancar o peixe dos obstáculos sem sair da margem, tendo prosseguido e concluído a luta mesmo aí, mas tratava-se de um peixe pequeno, nada diferente daqueles que costumamos pescar por aqui.

Mais uma Wildie alongada de 9 kg

De facto, o pesqueiro do Ramos devia ter mel. Às 21h e 10 minutos novo arranque seguido de desferragem. As canas do Mike e as minhas continuavam silenciosas (à excepção de bips isolados), assim como as canas do Gary e do Nigel no outro braço. As dificuldades esperadas começavam a sentir-se para praticamente todos os membros do grupo. Isso tem e teve as suas consequências psicológicas. Era tempo de começar a pensar em novas tácticas, montagens, apresentações, etc O Mike nunca parou de trabalhar e, além de nos ajudar, tal como o Fred (uma ajuda e companhia muito preciosa nesta jornada), incentivou-nos sempre, como é seu estilo, a lutar contra a adversidade, em lugar de esperar passivamente por resultados.
Além do factor técnico, o factor psicológico é muito importante nestas jornadas. O desânimo pode conduzir ao insucesso uma vez que o carpista pode enveredar por uma atitude de derrota antecipada ou de passividade resignada, o que nunca se deve fazer. Até ao fim, deve-se puxar pela cabeça e ponderar estratégias/locais alternativos, se os escolhidos inicialmente não funcionarem ao fim de um certo tempo. E foi assim que fizemos.

Terça-feira, 9 de Junho – Começa a animação para o Capitão Mike!

E de facto, o esforço do Mike começou a dar frutos nas suas canas, colocadas em locais estrategicamente perfeitos, muito bem apresentadas (nos dois aspectos referidos) e guarnecidas com os seus iscos caseiros de grande qualidade - que todos usámos com grande confiança -, as dumbells de 16mm de Atum. Ele referia constantemente que os arranques de carpas grandes começariam a chegar para toda a gente, era uma questão de tempo. E assim sucedeu, embora os tempos de espera para alguns tivessem sido consideráveis. Infelizmente, contra a justiça, o Mike não teve muita sorte nesta sessão.
Às 11h 20 (de dia), um arranque seguido de desferragem. Às 11h 25, na mesma cana, outro arranque que acabou numa prisão. Às 15h, a cana situada no canto mais cheio de obstáculos do dique e mais atreito a peixe grande, arranca com grande violência (carreto completamente preso) mas o Mike não consegue travar o peixe a tempo, apesar de usar entrançado na linha principal, e este desferra-se nos obstáculos. Às 18h30m mais um peixe grande perdido num dos hot spots, situado num buraco debaixo do dique, em que a profundidade dava pelos joelhos… De registar que muitas das grandes capturas foram feitas a profundidades inferiores a um metro, em muitos casos a altura de água era inferior à altura das próprias carpas, tendo em conta a sua variedade muito redonda. Concluiu-se que elas teriam que comer de lado… Mais uma lição prática e surpreendente a respeito das profundidades de pesca…
Às 19h, o Mike cede uma das suas canas, que arranca, ao Fred, que (não estando ali para pescar mas para ajudar em todas as tarefas que nós bem conhecemos) bem merecia pescar uma boa carpa. Tratava-se de uma cana perigosa, próxima de obstáculos. O Fred consegue vencer o peixe a tempo, a luta no vídeo é espectacular, mas os movimentos excessivamente nervosos da ponteira vêm a confirmar o que se previa. Uma carpa pequena, de mais ou menos 5kg, que nem sequer chegámos a pesar.
Pouco depois, o Mike não tem melhor sorte. Às 20 h e 20m, sensivelmente, captura uma comum, que também não se pesou, de mais ou menos 7 ou 8 quilos. Apesar de todo este estardalhaço com as lutas e o barco, prejudicial sempre à captura de grandes peixes, desenrola-se ainda outro arranque nas canas do Mike (às 10h 25m) que também não resulta em captura.
A captura de peixes pequenos (compreensível devido à pressão de pesca sentida sobre os grandes) é o pior que se pode desejar, quando procuramos apenas os grandes, mas é de certa forma inevitável. Contra a vontade do dono do lago, muitas carpas selvagens tinham emigrado, nas cheias, de um lago mais acima, através do regato que alimenta o lago, o qual desagua na baía em que o Nigel e Gary pescavam. Algumas dessas carpas pequenas eram também do stock original do lago. Isso explicava, em parte, porque saía tanto peixe pequeno (muito parecido com o que nós pescamos).
Como os maiores eram mais desconfiados e difíceis, era natural que os mais pequenos fossem enganados em primeiro lugar. Mais valera de facto que não saíssem. Só estavam a prejudicar a pesca uma vez que causavam grande perturbação e alarido nos pesqueiros por ocasião da luta, o que atrasava ainda mais a vinda dos grandalhões. Isto é a pesca. Isto aplica-se a todas as águas do mundo. E chegou mesmo a sair uma das poucas bremas do lago, o que também tinha acontecido no outro braço.
Mas estas ocorrências, como outras que temos testemunhado são mais uma prova empírica de que a estirpe das carpas, afinal, é o factor decisivo do seu crescimento. Numa água rica em alimentação como era esta, as wildies não tinham um aspecto enfezado, muito pelo contrário. Mas não diferiam grandemente daquilo que nós temos por aqui nas águas mais ricas.

Quarta-Feira, 10 de Junho – Dia de Portugal: o desânimo ataca

Nas primeiras horas deste dia (3h30m), o Fred é convidado a empunhar mais uma das barulhentas canas do Mike. E consegue capturar uma linda espelhada de 17 libras que bem merece a fotografia. O tipo de peixe que temos nos Pisões e nas Andorinhas. Mas não era isso que procurávamos, apesar de dar uma bela foto.

Um peixe muito belo de 17 libras mas não era o que procurávamos!

Até que (seriam 12h25m, já de dia), após uma boa chuvada e trovoada, que contribuiu certamente para aumentar a actividade do peixe, o capitão Mike consegue, finalmente, capturar uma carpa decente, na mesma cana colocada num buraco de pouca profundidade debaixo do dique. Esta veio a acusar 53 libras na balança (24, 04kg). E era uma carpa conhecida como “two tone” (Dois Tons). Mas não era esta que o Mike procurava, e sim a maior carpa do lago, de que se falou durante toda a sessão. Uma carpa que já devia passar a barra dos 30kg chamada Don. É o que se chama um target-fish, um peixe-alvo.

Uma belíssima espelhada de 24 kg mais que merecida para o Mike: Two Tone.

Eu contentava-me com qualquer carpa acima dos 12 kilos, o meu actual recorde, mas a minha hora tardava em chegar, o que já me impacientava. E já eram uns dias valentes de espera com as Harrison Torrix silenciosas ou pouco faladoras, apesar de vários esforços desenvolvidos, com o auxílio do Mike, Ramos e Fred, no aperfeiçoamento das montagens e sua apresentação (duas das canas tinham sido mudadas algumas vezes e nada). Obviamente, a Golden Sardine era uma brincadeira que se poderia tornar amarga se nada mais pescasse na sessão, algo perfeitamente possível em pesca tal como em futebol não marcar golos.

A pesca revelou-se ingrata e extremamente difícil em alguns pontos; o encorajamento dos colegas é fundamental para evitar o desânimo

Um dos vários truques que tínhamos posto em prática eram os iscos equilibrados, o que substitui, com vantagem o uso de montagens snowman (com popups ou milho artificial, etc), sobretudo em águas pressionadas, em que os peixes desconfiariam certamente deste tipo artificial de apresentação (já teriam visto milhares destas apresentações coloridas e teriam sido picadas com isso).
O kit Fox de enxertos de cortiça que o Ramos tinha na sua caixinha de magia foi usado por todos os pescadores do sector e devemos agradecer a sua gentileza. É realmente um kit muito útil. Claro que já toda a gente conhecia isso das revistas, artigos, foruns, etc. Mas nada como perceber na prática a sua utilidade. Consiste apenas numa simples broca com o diâmetro equivalente a um cilindro de cortiça incluído na embalagem (várias unidades), que se vai inserindo nos buracos criados nos iscos (boilies ou outro isco qualquer). Corta-se as sobras e ficamos com um isco perfeitamente equilibrado (ideal para solos menos densos), que à mínima agitação se levanta e ondula. Sem a desvantagem de uma apresentação mais artificial com dois iscos.
No entanto, apesar do encorajamento constante do Mike e de outros colegas eu começava a perder a fé na minha pesca. A sua generosidade foi ao ponto de me oferecer uma das suas canas no próximo arranque. Felizmente, tal não foi preciso. Uma das minhas canas, com montagem aperfeiçada (obrigado ao Ramos por me ter cedido dois Leaders) e colocada num bom sítio perto do dique deu finalmente um ar de sua graça e eu saltei literalmente para ela e para o barco, tendo conseguido afastar a tempo o peixe dos obstáculos. Mas, desta vez, sentia já um peso considerável e chegámos rapidamente à conclusão que se tratava de um peixe bom, embora as estimativas em relação ao peso sejam sempre arriscadas nestas circunstâncias.
O peixe proporcionou uma excelente luta e eu saboreei-a até ao fim, tendo em conta a protecção do barco, já relativamente afastado dos obstáculos mas, no vídeo, perigosamente próximo. Por acaso, era a cana de substituição da cana partida num lançamento que me tinham enviado de Inglaterra. Tal como dizem, apesar da rigidez da ponteira no lançamento, é realmente uma cana fabulosa na luta com grandes carpas e desta vez dobrou totalmente acima do teste de curvatura. Era o meu momento de sorte e convinha não desperdiçar. Tive o máximo cuidado e não quis forçar demasiado a subida do peixe com receio de uma desferragem, por isso prolonguei a luta mais do que é habitual, usando a capacidade de absorção da cana. Ademais, o peixe tinha muita força. Mas, uma vez que estava em águas abertas, não achei necessário forçar demasiado a entrada no camaroeiro. Mas lá chegou a hora em que consegui cansar o peixe à superfície e, um movimento preciso e rápido do capitão Mike com o camaroeiro, pôs termo à luta. Yeeessss!!!! Muito se ouviu este grito pelo lago. Tratava-se de uma linda espelhada, de nome desconhecido, e ali estava certamente o meu recorde, restava apenas pesá-la. Estes momentos de alegria para o próprio e para os companheiros são do melhor que a pesca nos oferece, de facto. A balança veio a revelar um peso relativamente modesto para os padrões desta água, ou seja, 37,6 libras (pouco mais de 17 kg). Para mim isso pouco importava. Era um peixe recorde, um peixe acima de 17 kg, um peixe lindíssimo, mais comprido do que redondo na morfologia. Missão cumprida para mim. Um peixe, que com alguma sorte, poderíamos encontrar numa água portuguesa com boas fontes de alimentação e com prática de pesca sem morte.


Uma líndissima e possante espelhada de 37,6 libras (17 kg) mudou a minha sorte

Mas, uma vez que o objectivo era colectivo, isto é, proporcionar capturas recorde a todos, convidámos o Nigel e o Gary, sucessivamente, para virem pescar para o nosso braço, mediante uma redistribuição dos pesqueiros. E assim aconteceu. Uma vez que já tínhamos feito o gosto ao dedo, era preciso agora ajudar os outros a baterem também o seu recorde para que todos levassem capturas. Isso já tinha sido feito em Hostens.
A chuva que caía e a engodagem idêntica acumulada nos pesqueiros estavam a trabalhar em nosso favor e a produzir os seus frutos, os peixes estavam a ganhar confiança nos iscos, daí a importância de se usar engodos e iscos idênticos. Ainda para mais, tínhamos tido o cuidado de moer todos os boilies com o auxílio dos moedores Krusha da Korda.

A chuva raramente nos deixou mas isso pode ser positivo no Verão pois oxigena a água

Não tardou muito até que o Nigel estivesse no barco a lutar, com grande firmeza, com mais uma carpa grande. A luta foi muito breve porque o Nigel não deu hipóteses ao peixe. Mas veio a revelar-se um peixe enorme de morfologia redonda, uma espelhada, um peixe também conhecido por Miss Champagne. A balança fez duas revoluções e marcou o peso impressionante de 59 libras e 6 onças, isto é, 27 kg e 34gr. Era um recorde impressionante e uma grande conquista para o Nigel, para o grupo e para a Actividade APCF. Isto é França, vive la France! Por isto, tinha valido a pena conduzir 2000 km com todos os perigos e gastos que isso implicava.


Um grande troféu para o Nigel!!! Recorde totalmente pulverizado!

Depois de tanto estardalhaço é evidente que a pesca se retraiu por algum tempo.

Quinta-feira, 11 de Junho – Recorde de cervejas e de carp fishing

Às 7 horas da manhã o Ramos captura mais uma pequena comum, à volta de quatro ou cinco kilos que foi prontamente devolvida.

Não é muito frequente neste lago pescarem-se tantos pequenos; a pesca está cada vez mais complicada

Era a vez do Gary nos vir fazer companhia ao pesqueiro, na esperança de facturar, enquanto o Nigel vigiava sozinho (e ocasionalmente com a minha companhia) o pesqueiro original, onde apenas duas ou três carpas residentes de grande tamanho turvavam a água a saborear as ofertas, sem querer saber dos iscos das montagens.
Gerou-se uma grande expectativa de espera num período de grande calor que veio a seguir à chuva. E o dia foi-se passando, a beber cerveja e a tagarelar, mas sempre com os olhos postos nas canas, à espera de um arranque que tardava em vir. Eu optei por renunciar à pesca temporariamente e comer uma refeição quente no lodge para fazer companhia ao Nigel, em vez de comer no local de pesca. De registar que as refeições da tarde foram sempre muito bem confeccionadas e apetitosas, por vezes com receitas exóticas, que eu gosto sempre de experimentar.
No entanto, ao pequeno-almoço comemos sempre a mesma coisa: ovos estrelados, batatas fritas, salsichas, bacon, tomate cozido e pão. Manter esta dieta por mais de uma semana não seria certamente bom para o nível de colestrol e para saúde. 
Após a refeição, seriam umas 19h (hora portuguesa), ouviu-se perfeitamente um alarme tocar e consegui ainda ver o Gary empunhar rapidamente a cana fazendo-a vergar totalmente, tendo conseguido afastar a carpa dos obstáculos a tempo. O problema é que o barco, devido ao transporte da comida ou de qualquer outra coisa, estava, nesse preciso momento, na margem em que me encontrava. Além do mais, o motor eléctrico estava a falhar devido à pilha ou qualquer outro problema técnico de que não me recordo e não estava ligado nessa altura. O Fred fez o melhor que pôde, melhor não seria possível, e ainda conseguiu recolher o Gary no barco, mas a carpa, que parecia ser uma comum gigantesca, desferrou-se por ter passado pelos baixios. Eu tive oportunidade de assistir à luta de uma perspectiva privilegiada, da margem em que me encontrava. Naturalmente, as fotos não têm qualidade pois a minha digital não tem teleobjectiva que chegue O Gary trabalhou muito bem o peixe, conseguiu até fazer o mais difícil, era uma cana perigosíssima em puro snag-fishing. As testemunhas mais próximas garantiram que se tratava de uma das maiores comuns do lago, senão a maior, um peixe que devia rondar os 24/25 quilos. No entanto, devido ao atraso do barco, perdeu-se uma captura recorde valiosa, o que foi lamentado por toda a gente, como é natural. Mas ainda havia duas noites e um dia de pesca, como tal ainda havia possibilidade de facturar, inclusivamente para o Mike. Nessa altura, fomos nós que começámos a animar um Mike cada vez menos convicto de poder vir a pescar o Don.

Imagem tirada de uma margem oposta que mostra o momento dramático da luta com uma grande comum

12 de Junho, sexta-feira – Contagem decrescente e recorde absoluto de cervejas

Nas primeiras horas da madrugada, o silêncio da noite foi quebrado mas apenas para capturar mais uma decepcionante comum de apenas 7 ou 8kg.
Mais tarde, às 5h20m, uma das canas do Mike sofre um arranque mas o peixe desferra-se outra vez. Ainda bem, segundo o próprio, pois seria mais um peixe pequeno.
Pouco depois, o Gary junta-se de novo a nós. Reposicionamos, renovamos montagens/ iscos, e reengodamos, de uma vez só, todas as canas, para perturbar ao mínimo o pesqueiro. Tudo isso demorou perto de duas horas.
Continuamos a fazer figas e com os olhos postos nas canas para ferrar o mais depressa possível e levar a carpa para zona livre. O barco estava agora a postos com um motor mais velho e pior mas suficientemente apto para a luta. É superstição talvez, mas parece que nas alturas em que esperamos mais por um arranque e estamos a postos para saltar para a cana, isso nunca acontece; acontecendo mais quando estamos ocupados com outras coisas, como por exemplo, distraídos, a preparar um café ou a discutir animadamente um assunto qualquer…
Mas isto é apenas uma superstição… Mais ou menos às 14h (hora portuguesa), a cana perigosa canta mas o Gary nem dá tempo à carpa para se refugiar nos obstáculos. A luta é feita com grande mestria e estilo, apesar dos muitos litros de cerveja entretanto consumidos (certamente um recorde). E o barco, maravilhosamente conduzido pelo capitão Mike, atraca para gáudio de todos, com uma preciosa carga. Nada mais nada menos do que uma belíssima espelhada redonda com 45 libras (mais de 20 kilos). Missão cumprida para todos, e em especial para o Gary que bateu o seu recorde de uma forma progressiva e não abrupta, conforme pretendia. Ademais, tratava-se de um peixe desconhecido que se baptizou por Cagary. Não por causa do nome Gary mas pelo facto de os franceses terem aprendido um novo verbo e terem-no modulado com a sua própria pronúncia. E como se repetiu isso durante todos os dias (fazer isto, fazer aquilo e aprés, cagari), acabou por se baptizar o peixe dessa forma.



Missão plenamente cumprida: mais um recorde com mais de vinte quilos

Mais umas cervejas para celebrar, as fotos do costume, uma grande festa. Os objectivos dos sócios portugueses da APCF estavam cumpridos, o que viesse seria já um brinde.
Agora todos esperávamos que o grande capitão Mike conseguisse capturar o peixe que já procurava há vários meses, uma vez que seria a última vez, este ano, que pescaria neste lago. E procurámos animá-lo, sugerindo-lhe as conversas com as canas que ele nos tinha proposto também. E também o fizemos para as canas dele. Um grande conselho dele é que devemos falar com as nossas canas, carinhosamente, para que elas arranquem. O rei do lago, o grande Don, seria certamente o próximo peixe e seria do outro rei do lago, o capitão Mike.
Infelizmente, as nossas preces não surtiram efeito e como esta é uma água em que os peixes têm hábitos diurnos, ao contrário das águas portuguesas, à medida que o dia ia minguando diminuíam as hipóteses de uma última boa captura.


O sol começou a pôr-se e a esperança também. A refeição chegou, conduzida por barco com o auxílio do Fred. Seriam umas 8h 30m. Já estávamos no café quando a minha central apita, o seu som é inconfundível porque muito mais suave…. Demorei algum tempo a encontrar a cana correspondente porque os meus alarmes são silenciosos. Era uma vez mais a cana do dique, a única que me proporcionou capturas. Ferro o peixe mas sinto-o muito bloqueado e preso. Salto rapidamente para ao barco e recolho rapidamente linha com o auxílio do barco e do seu motor. Num instante, encontramo-nos de novo frente ao dique, mas a carpa prendeu-se num buraco, está bloqueada. A perda de tempo motivou este contratempo que pode custar-me o peixe. O Mike não perde a cabeça e enfia os braços dentro do buraco o que leva a carpa a fugir para águas livres, estava apenas metida dentro do buraco. Com alguma atrapalhação, porque tinha um camaroreiro nas mãos, a luta prossegue normalmente em águas livres, na imediação do dique. E não demora muito tempo até o peixe entrar no camaroeiro. Desta feita tratava-se de uma comum de bom tamanho. Viemos depois a descobrir, já em terra, que se tratava de uma das comuns mais famosas do lago, a mais afoita por sinal. Aquela que era sistematicamente ferrada por todos os pescadores, incluindo pelo Manuel (a foto aparece nas revistas): The Hook. Eu como não sou esquisito sempre disse que não me importava nada de pescar esse peixe. E cumpriu-se o meu desejo. Infelizmente, um peixe que já pesou mais de 20 kilos no passado havia entretanto perdido três quilos e não consegui bater de novo o meu recorde, a balança não acusou mais do que 17 kg. Isso pouco me importou e importa. Este era um bónus, um brinde, e mais um peixe alongado, de uma morfologia que não seria impossível existir também em Portugal. Disseram-me que era dos peixes mais fáceis de segurar na fotografia mas eu tive grandes dificuldades em dominá-lo. Tenho mesmo que começar a fazer musculação para poder fazer carp fishing em França. Fazer reportagens como esta e escrever artigos, gratuitamente, para as revistas de pesca desportiva não aumenta a minha massa muscular nem a conta bancária, nem tão pouco o currículo académico, mas é tudo feito com gosto e paixão, e isso se calhar é o mais importante de tudo.


 

The famous and only Hook (O Gancho): 17 kilos

Não, como sempre disse, o mais importante era chegarmos e regressarmos todos inteiros. A viagem é muito longa e envolve alguns perigos, sobretudo quando não dormimos muito. A tensão é enorme para quem conduz e ultimamente tenho tido problemas de costas.
Por conseguinte, o balanço a fazer é, como sempre, muito positivo. E estes resultados devem ser o orgulho da APCF, devem contribuir para projectar a imagem de credibilidade da APCF e contribuir para alargar os horizontes dos carpistas portugueses, tendo em conta a partilha que pode ser feita através destes relatos. Isto foi um autêntico estágio de carp fishing avançado. Na vida como no carp fishing, por mais que estudemos e pratiquemos, estamos sempre a aprender coisas novas e devemos comunicar aos outros precisamente esta mensagem.
Como já foi feito diversas vezes (e nunca é demais), os créditos destes resultados devem ser atribuídos, em primeiro lugar, aos nossos mestres e grandes companheiros de sessão, Mike e Fred, a quem dirigimos uma grande palavra de agradecimento e amizade, na esperança de, para o ano que vem, podermos fazer outra vez uma coisa do género em França.
Não há dúvida que, do ponto de vista do alargamento de horizontes e formação de um carpista português, a frequência deste tipo de águas, difíceis mais compensadoras, pode ser extremamente importante do ponto de vista técnico e pessoal. Por isso, eu penso que a Aventura APCF França é uma iniciativa que se deve renovar no futuro. Existem por lá milhares de águas como esta, algumas bastantes maiores, que merecem ser visitadas, em alternativa às run-waters que já temos por cá. Um dos maiores aliciantes é a certeza de se poder pescar um grande record; o outro é a certeza de que vamos aprender certamente muito.


 

 


 


 

FIM

 * Texto- Pedro Martins

Actualizado em ( Terça, 23 Junho 2009 15:41 )
 

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